As Sensuais Mulatas de Nide

 

Jornal A Tarde (Bahia), 11/02/2009, Cultura, por Mariana Alcântara. Reproduzido de www.atarde.com.br.

 

Mulatas de NideElogiada por Jorge Amado, Eronildes Bacellar, 81 anos, retrata a ambiguidade das mestiças da Bahia

 

Aos 81 anos de idade, a artista plástica Eronildes Bacelar é uma senhora ousada. Das suas pinceladas com tinta acrílica sobre tela surgem curvas de mulatas manemolentes, altaneiras e insinuantes. Nide, apelido pelo qual é conhecida, conta que a inspiração para o trabalho, repleto de sexualidade, veio através das histórias dos tempos de sua avó, época de escravidão.

"Eu procuro pintar o que é bonito na vida. Não quero deixar transparecer o lado horripilante da nossa história. Coloco nos quadros apenas o que considero positivo e belo de ser lembrado, como as características sensuais da nova geração de brasileiros, fruto da mistura de raças", diz.

Em busca da perfeição, o realismo da artista plástica enfoca os olhos verdes, lábios grossos, seios enrijecidos e maçãs do rosto volumosas. A pintora já ganhou elogios do escritor Jorge Amado que, nos anos 70, escreveu: "As baianas, as iaôs, as ekedes e os orixás de Nide levam a formosura, a graça e a beleza da Bahia pelo mundo afora. São bonitos de se ver e convidam a gente a amar o mundo que lhe serve de tema e inspiração".

Personagens –  O retrato das mulheres cor-de-jambo, que colorem as telas da artista, poderia muito bem servir de ilustração para as obras do criador de personagens femininos, como Gabriela, Tieta e Dona Flor. Pendurados nas paredes, os quadros das mulatas parecem convidar o admirador para uma sensual experiência estética, o que deixaria qualquer "malandro" ávido de prazer e desejo.

Ao prestar atenção em outros detalhes das telas, o que leva um certo tempo – pois os olhos se prendem nas curvas das voluptuosas deusas do ébano –, surgem toalhas de richiliê que mais parecem bordadas do que pintadas. Outro aspecto que chama a atenção é a tonalidade das cores em  jogo de luz sob as partes íntimas dos corpos retratados.

As criações de Nide já foram apreciadas pelo público brasileiro de Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Belém, Porto Alegre, Ilhéus, Curitiba, dentre outras cidades. As telas também ganharam destinos internacionais e estão expostas em galerias da França, Rússia, Estados Unidos e Espanha.

"Tenho certeza que existem trabalhos meus espalhados pelos quatro cantos do mundo", afirma a artista. "Quando eu disponibilizava os quadros em uma galeria de arte do aeroporto de Salvador, cerca de dez a quinze telas eram vendidas por mês. Desconheço a procedência desses clientes, sei apenas que são estrangeiros".

A pintora, com inúmeras homenagens e prêmios, não tem muito do que reclamar. Através de sua arte, ela garante que já comprou casas, fazendas e carros com o lucro proveniente da venda das telas e sustentou, sozinha, os oito filhos depois da morte do marido. A única reclamação a fazer é o preconceito por parte de uma parcela da sociedade baiana com o seu trabalho.

"Nas exposições que faço, as donas-de-casa elogiam a beleza das minhas telas, mas afirmam que não pendurariam um quadro de uma mulher de corpo esteticamente perfeito e provocante nas parede de suas salas", conta.

Mais adiante, Nide confessa: "Na verdade, elas não querem, por pudor ou hipocrisia, ser comparadas às mulatas, pois sentem ciúmes de seus maridos e não querem decorar suas casas com mulheres que se parecem com suas empregadas".

Eronildes conta que nasceu em 1927, na cidade de Aiquara, interior da Bahia. O interesse pela pintura veio tarde, depois dos 30 anos. Incentivada pelo marido médico, ela cursou aulas de desenho na Escola de Belas-Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), em 1963. A ideia inicial era ter um passatempo.

Com o sucesso de suas obras, nas décadas de 70 e 80, a artista começou a investir na carreira e procurou aprimorar sua técnica através de cursos realizados no Rio de Janeiro e em Brasília. Antes das mulatas, Nide já pintou temas sobre crianças, caricaturas do folclore baiano, orixás, paisagens, marinas e casarios. "Eu copiava a arte de outros pintores, depois, com a experiência e maturidade, percebi que eu poderia inventar um mundo do meu jeito", confessa.

A ousada jovem senhora, que mora em Piatã, conta que não pinta mais com a mesma voracidade do passado e aproveita o tempo livre para se cuidar. "Pinto quando sinto vontade. Atualmente, me permito fazer aulas de dança de salão e academia duas vezes por semana".

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